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BRASIL E UMBANDA: TRÊS PILARES IDÊNTICOS EM SUA CONSTITUIÇÃO

            Gabriel Campi

Contato e-mail: gabrielcampiro@gmail.com


Acervo do autor
Acervo do autor

Uma religião relativamente nova, em um país relativamente novo. Se comparados a tantas vertentes espirituais filosóficas e a tantos outros países existentes, o Brasil e a Umbanda são constituições recentes na história da humanidade, ambas com mais traços em comum do que se possa imaginar. Assim como qualquer país, o Brasil se constituiu sobre pilares culturais distintos. Choque entre povos, idiomas, artes, crenças, vivências e muito mais, forçam o ser humano a buscar uma unidade para tentar dar sobrevida a alguns fatores e findar a concepção de outros. A independência é, e sempre será, uma forma de revelar a unidade que já existe e reafirmar a separação do que já não cabe nessa concordância. Com isso, quando se assume o papel independente de sua existência, vemos um país com aproximados 200 anos de declarado como tal, e uma religião com pouco mais de 100, em constante declaração. 

Assim, além do tempo curto de duração em ambas as histórias, tem-se também, certos pilares em comum em suas construções.

O Pilar Europeu

A começar pela Europa, continente muito reconhecido pela expansão marítima do mundo moderno, que trouxe consigo toda uma bagagem já estruturada, indo da ampla palheta de vestimentas às complexas línguas faladas e escritas. Uma cultura imponente até então desconhecida nas Américas. Consigo, os europeus trouxeram o Kardecismo, doutrina religiosa e filosófica espiritualista de moral cristã. Presente até os dias atuais na sociedade brasileira, e base filosófica da Umbanda. Outro fator de extrema evidência é o idioma estrangeiro português, com sua reestruturação e adaptações, hoje língua oficial do Brasil, também o principal idioma falado durante os atos litúrgicos da Umbanda.

Entre tantas questões, é notório observar que o Pilar Europeu é base sólida para a constituição do país Brasil e da religião Umbanda. Porém, outra estrutura, anteriormente enraizada, possui presença muito mais forte e evidente na edificação conceitual dessas duas constituições.

O Pilar Indígena

Em abril do ano de 1500, após longa viagem marítima, o português Pedro Álvares Cabral e sua esquadra chegaram ao Brasil. Este fato ficou conhecido como o descobrimento do país. Entretanto, como dizer que terras já possuídas foram descobertas? Estima-se que cerca de três milhões de povos originários já viviam em solo brasileiro. Com vida coletiva, com seus próprios meios de interação, com suas línguas, crenças, culinária, moradias, artes, enfim, com cultura própria e enraizada. Aliás, o termo “enraizada” é apropriado para nos referirmos a esses povos, pois sua relação com a natureza sempre foi, e continua sendo, genuína.

A estreita aproximação dos povos originários com a natureza se expressa de muitas maneiras: da subsistência alimentar à concepção do sagrado, é natural a interação entre o homem, a flora e a fauna. Essa interação é notável tanto na construção do Brasil quanto na liturgia da Umbanda, havendo, contudo, divergência extrema entre as formas de interatividade. Enquanto a interação do homem com a natureza como padrão nacional é marcantemente agressiva e exterminadora, em nome do “processo civilizatório”, na vertente religiosa essa interação é vivenciada e usufruída como legado dos antepassados.

No que se refere à constituição do Brasil e da Umbanda, o Pilar Indígena, ou melhor Originário, não se limita a questões da natureza somente, pois é preciso considerar outros fatores, como por exemplo os relacionados à linguística. Hoje, temos no território brasileiro diversas cidades nomeadas com vocábulos de idiomas dos povos originários. Do mesmo modo, encontramos estruturas linguísticas, destes mesmos povos, presentes na liturgia umbandista.

O misticismo, tanto na constituição do Brasil quanto na constituição da Umbanda pode ser considerado um traço de identidade, uma inclinação para acreditar em forças e entidades sobrenaturais, por intermédio das quais as pessoas buscam se comunicar com o sagrado, inclusive por meio do envio e recepção de mensagens no âmbito de uma realidade para além do mundo físico. Pode-se afirmar que tal questão tem suas marcas proferidas de culturas indígenas, porém não somente delas. Melhor compreensão desse fato é obtida quando completamos os dados até aqui apresentados com características de um terceiro pilar, de notável importância na constituição do Brasil e da Umbanda: o pilar africano.

O Pilar Africano

De acordo com diversos estudos científicos amplamente divulgados, o continente africano é berço da humanidade, pois, em terras africanas surgiram os primeiros homens. Dessa forma, associando o berço à maternidade, teremos na África algumas qualidades evidentes, como o de provedora, precursora e acolhedora. Entre tantos fatores atribuídos à função materna, encontramos na constituição do país Brasil e da religião Umbanda, o mais genuíno de todos eles: a herança genética e cultural, às quais se associam fatores sociais e espirituais.

Durante o Censo 2022 do IBGE 112,7 milhões de brasileiros se declararam negros: 55,5% da população do país. Entretanto, os traços biológicos herdados de africanos não se resumem apenas à cor da pele, uma vez que os outros 44,5% da população possa também ter herdado a cultura africana.

A língua, a música, a dança e a arte. A culinária, as manias e expressões. As roupas, as crenças, os comportamentos em sociedade. Cada elemento e cada conjunto compõem a cultura de um povo. Hoje, palavras do cotidiano brasileiro, das mais variadas, como quitanda, caçula, moleque e fubá possuem origem africana.

Muito presente e com traços marcantes, os ingredientes leite de coco, noz moscada, pimenta malagueta e azeite de dendê foram introduzidos no cardápio brasileiro graças à presença africana. Ritmos tipicamente brasileiros como funk, samba carioca e bossa nova; danças e expressões populares que integram a base relacional da sociedade brasileira, também têm presença garantida na cultura popular graças à herança africana.

O mesmo observado na nação brasileira se observa na prática litúrgica umbandista, que também herdou conceitos e características africanas, sendo a questão espiritual, a mais evidente de todas. Simpatias, rezas, misticismo, espiritualidade, são elementos presentes nos ritos e na doutrina umbandista. Do mesmo modo, elementos da litúrgica da Umbanda se tornaram comuns no cotidiano brasileiro, o que evidencia como um país e uma religião nativa, por assim dizer, foram constituídos sobre pilares igualmente fundamentados. Um fato evidente também na constituição do Candomblé, mas isso, já é uma outra história.

 
 
 

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